quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Câde Amarildo? (Hélio Luz advertiu)

Mais de 2 meses depois o seu desaparecimento*, parece que a pressão funcionou: Amarildo não se tornará mais um desaparecido ignorado pelo Poder Judiciário.

Ainda não se sabe onde está o corpo (teria uma pista apontando para a região de Resende). Entretanto, o inquérito da Divisão de Homicídios responsável pelo caso indica que o pai de família não teria resistido a uma sessão de tortura executada sob o comando do próprio comandante da UPP da Rocinha, o major Edson Santos. Agora, o caso deve seguir na justiça e temos que ter cuidados para não condenar antes da hora.

Essa notícia deve ser uma verdadeira luz no fim do túnel para os familiares de Amarildo. Porém, o envolvimento de uma unidade UPP num caso tão macabro, se for comprovado, seria terrível para a imagem do maior símbolo da política de segurança pública atual. O projeto das UPP pretende oferecer exatamente o contrário.

O caso Amarildo não é um ocorrido isolado de desaparecimento ligado á violência. Aconteceu depois de uma grande operação policial (Operação Paz Armada) que visava desmantelar os pontos de venda de droga (bocas de fumo...) da favela mais famosa do Rio de  Janeiro. Ou seja, as forças da UPP não substituiram as forças do tráfico. Tudo indica que conseguiu se reestruturar logo depois da  passagem do BOPE (ponto de partida de todo programma UPP). Todavia, é preciso reconhecer que com a UPP, o servidor público começa a estar mais presente na favela. Obviamente, deveria estar lá há muito tempo, e em teoria, a chegada do policial deve possibilitar a chegada de outros tipos de servidores públicos (o que significa serviços públicos). Podemos lamentar que este servidor é um policial em vez de um professor...


Falendo em educadores, será que essas recrutas recebem a formação adequada? E depois de se formar, como fica o salário? Será que eles ou elas tem condições otimais para poder manter sua integridade na hora que começa a conviver perto do tráfico ou com uma hierarquia corrompida?

Logo no começo do programa, especialistas levantaram dúvidas sobre o verdadeiro potencial das UPPs. Um deles, ex-diretor da Polícia civil de Rio de Janeiro, foi muito crítico.

[Hélio Luz aparece no famoso documentário "notícias de uma guerra particular" que confronta os pontos de vista do tráfico de drogas e da polícia, civil (Luz) e militar (Pimentel). Luz aponta pra racionalidade econômica do tráfico (os salários oferecidos estão sempre acima do salario mínimo) e principalmente pra lógica de confronto escolhida pelo Estado que é na verdade uma política de "contenção" das classes mais pobre]

Entrevistado pelo jornal Extra um ano atrás, Hélio Luz levantou um ponto extremamente importante. Segundo ele, as milhares de recrutas formadas para atuar nas UPPs correm o risco de seguir o mesmo rumo que alguns policiais militares mais antigos: o caminho da corrupção (e por aí vai a spiral). Empurrar este fato debaixo do tapete pode levar a um resultado desastroso: a duplicação do problema inicial.

UPPs não resolverão nada (nos médio e longo prazos) se a corrupção não for combatida em prioridade na estrutura, de cima para baixo.

Este caso, se for comprovado, mostra que Hélio Luz não sofre de pessimismo, mas sim de lucidez. Se alguns policiais das UPPs praticam tortura e homicídio, pode-ser deduzido que muitos deles vão acabar aceitando dinheiro.

Entretanto, a popularidade e a competência do secretário de segurança José Mariano Beltrame não podem ser ignoradas, assim como os policiais honestos que tentam trabalhar numas condições extremamente difíceis e perigosas.

A seguir... 

* Relembre o caso lendo essa excelente matéria da Agencia Pública

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