quarta-feira, 26 de junho de 2013

O caso #changebrazil: uma análise imparcial

“Tá nas redes: vídeos em inglês se proliferam e levantam questionamento”, manchete do Jornal do Brasil (JB) sobre vídeos virais ligados aos protestos, me deu vontade de saber mais e fui à trás de um movimento em particular: #changebrazil.

Me levou para um lugar que eu não suspeitava.

O movimento #changebrazil se destacou pelo número de pessoas que supostamente assistiram aos vídeos no YouTube. Um jovem anônimo com uma cara de ator desabafa em inglês impecável contra o Brasil, anunciando algum tipo de revolução. Achei o conteúdo sem substância e muito pasteurizado (opinião minha, discutível). Entretanto, o objetivo deste post não é analisar o conteúdo, mas sim tentar mostrar como um cidadão comum (como eu) pode desvendar uma ação organizada graças aos meios de comunicação digital.

A parte técnica chamou atenção. É bem produzido, provavelmente usa um teleprompter. O moço, se expressa bem, o vídeo tem muitos recortes, o que mostra uma preocupação em relação a edicão.

Um texto, “What is this companheiro?”, começou a se espalhar pela rede. É uma análise bem detalhada que questiona a proposta “verdadeira” do movimento que tenta sujar abertamente a imagem do país lá fora. Parece que isso forçou Silvio Roberto Maia Júnior a revelar sua verdadeira identidade no site Direto da Aldeia. Até então, a tática estava indo bem. O moço já era famoso sem nome. Imagine com.

Começa a fase da interação pessoal com o público brasileiro, e os primeiros vídeos em português impecável com um leve sotaque inglês.

Ele ficou debatendo, foi aplaudido por alguns e chamado de agente da CIA por outros.

O objetivo “nobre” dele seria de denunciar os problemas insuportáveis do Brasil, justificando uma rebelião popular apartidária que o “movimento” se propunha a ajudar. Entretanto, Silvio Maia ou Thismr Mia (dependendo da conta facebook, o segundo mudou para Silvio Roberto Maia) afirma firmemente que age sozinho. Ou seja, é um cidadão comum (de SC), cansado da opressão do estado, que conseguiu usufruir da poderosa rede para expressar sua indignação, conseguindo no processo muita atenção (milhões assistiram aos vídeos). Isso tudo em pouco menos de 10 dias!

Entretanto, um problema (e a possibilidade de termos uma manipulação bem real) apareceu por causa de futebol. Mas não foi nem futebol nacional, nem Copa das confederações.

Alguns internautas assistiram pela televisão a cabo a um jogo entre o Fluminense e Orlando City, na cidade de Orlando na Florida. Antes do jogo, na hora do hino nacional americano, apareceu na tela, do lado da cantora (1:00) que estava no meio do campo, um cartaz publicitário divulgando a marca do movimento #changebrazil. Mas tarde, duas faixas foram colocadas no gramado na frente das duas equipes. Durante o jogo, vários jogadores do Fluminense (3:20) foram comemorar na frente de mais uma faixa postada do lado de uma da UNIMED. Só isso.

Esses internautas mandaram links do evento meio confusos, achando estranha a presença das faixas num canal da rede Globo (Sport TV).

Também achei muito estranho, e não fui o único. Muitas pessoas começaram a questionar a relação entre os dois. Tive a sorte de acabar cruzando com o protagonista dos vídeos no site Direto da Aldeia e de poder fazer a pergunta seguinte diretamente a ele:

"Então, para mostrar suas boas intenções, EXPLIQUE PARA GENTE QUEM PAGOU PARA SUA PROPAGANDA NA SPORT TV (GLOBO). Não deve ser barato, e duvido que a Globo não tenha o controle do que aparece na telinha de seus canais. (junto com os links)."

Fiquei feliz de ver a reação de outras pessoas quanto a meu post. Muitas delas começaram a duvidar da verdadeira natureza do movimento. Alguns cobraram para ter uma resposta, e até teve o caso de uma pessoa (relacionada a um grupo de engenheiros online), que já tinha aderido com corpo e alma (exagerando um pouco) e se espantou com essas informações.

Silvio Maia respondeu, e a partir daí, começou um bate papo nos comentários e depois na conta facebook dele.

Segundo ele, o número elevado de visualizações de seus vídeos explica a presença das faixas. Alguém teria colocado por vontade própria.

Ou seja, teriam colocado as faixas em várias partes do campo sem custo, e os jogadores do Fluminense teriam sentado na frente duma delas para comemorar um gol... de graça!!!

Se ele conseguiu despertar este tipo de reação frenética, fora do país, num jogo transmitido pela Sport TV (Rede Globo), o cara é bom mesmo. Teria que ser praticamente um guru para conseguir umas coisas dessas.

Mas não acreditei, quis saber mais, e houve mais trocas (na conta Silvio Maia). Depois de várias respostas ridículas (do tipo você não entende nada de nossa causa, bem parecido com papo de seita), ele acabou dando um pouco mais de informação.

Segundo ele, as faixas foram colocadas por uma iniciativa de Flavio Augusto de Silva, um dois três associados de Orlando City. A informação vem do site da Globo.

A partir deste ponto, comecei a ver o Silvio Maia como o empregado de uma campanha publicitária que se faz passar por um jovem indignado, contra a política brasileira e o país em geral. Quando trocava mensagens com o Silvio Maia, aproveitei para percorrer um pouco sua página FB (agora bloqueada). Achei ele limitado em relação a o que ele escreve comparado com os monólogos dos vídeos. Posso estar errado, mas isso me convenceu que ele realmente usa um teleprompter, com o texto escrito por outra pessoa. De qualquer jeito, minha atenção começou a se orientar integralmente do lado do Flávio Augusto de Silva.

É um homem de negócio consagrado, dono do Grupo Ometz do qual a franquia Wise Up faz parte (que ele vendeu recentemente). Chegou no time de futebol de Orlando City em Fevereiro de 2013. O time da Florida tem a ambição de participar da liga norte americana de futebol (MLS).

Procurei saber mais sobre o empresário. Assisti a um vídeo da mãe dele muito interessante que conta seu percurso. Vem de uma família muito modesta. É um caso típico do que a gente acostuma a chamar de “sonho americano”. Gostando ou não do mundo empresarial, chama respeito (assumindo que ele seja honesto, claro, mas não vejo porque o contrário). Trabalhou muito para conseguir tudo o que ele tem. Também estudou muito e tinha conseguido se formar para entrar na marinha, mas acabou mudando de opinião. Com razão, parece.

Ele não tem um percurso comum, e isso levanto ainda mais dúvidas sobre o caso #changebrazil.

Por que um profissional tão qualificado iria apoiar um movimento tão recente, produto viral da Internet cujo 
protagonista parece tão limitado comparado a ele. É um ponto importantíssimo. Posso até acreditar que ele também seja indignado com o Brasil. Imagino a quantidade de impostos que ele deve pagar; a obrigação de andar com carro blindado; a preocupação com a família. Pode ser que quis manifestar sua indignação por iniciativa pessoal. Mas mesmo assim, ficou insatisfeito.

Não pertenço ao mundo empresarial, mais convivi vários anos perto dele. É um mundo pragmático. Tudo é calculado. Movimento social, a menos que seja um mega projeto do tipo Afro Reggae, não tem lugar neste mundo. Colocar a faixa (marca) de um movimento que apareceu de nada no dia 14 de junho vai contra todas as normas corporativistas. É um tiro no pé garantido em termos de relações públicas. Os associados (2 ingleses) nunca iriam permitir isso depois de menos de 6 meses de empreendimento com o associado brasileiro. Só podiam permitir isso na base de garantias concretas, ou seja, o conhecimento de que está realmente a trás desta marca.

Isso me leva a acreditar que tem algo muito errado (não achou que seja a CIA não, fazendo favor!).

Até acreditando na tese da iniciativa pessoal do Flávio Augusto de Silva - que ele conseguiu convencer os associados, e decidiu gastar muita grana para pagar os direitos das faixas e os jogadores para eles comemorarem na frente da faixa, a história ainda não bate bem.

Por que a rede Globo iria cometer o mesmo erro infantil de relações públicas e comentar (pelos narradores durante o jogo e por escrito no site) sobre uma campanha criada por uma pessoa que apareceu do nada no dia 14 de junho?


ATUALIZAÇÃO (1)

Mr Maia continua negando qualquer ligação com a marca do empresário.

O Empresário, que se apresenta como Flávio Augusto, parece ser o dono da marca #changeBrazil

Não sei se foi registrada, procurei mas não encontrei.

A marca apareceu, e está sendo divulgada, na página facebook da fundação do empresário: Geração de Valor 

Vem com um texto do empresário bastante claro. Recomendo a leitura e posto um "apetizer" (que tem que ser lido com seu contexto antes de começar a interpretar )
Hoje eu tive uma longa conversa com o vice-presidente de um grande banco internacional no Brasil ao lado de 2 de seus principais executivos. Numa outra reunião, conversei com o presidente de um mega grupo de comunicação.
O que os dois têm em comum comigo e com cada um que estará nas ruas hoje?
Todos estão de saco cheio com... (Flávio Augusto: 17 de junho de 2013)
Parece que quem acha que haja forças de fora atuando (ou pelos menos demonstrando vontade) no Brasil não está sofrendo de paranóia. Até o Bart Simpson está nessa.

O último parágrafo continua sem respostas. Não sei quais são os critérios para fazer propaganda na Rede Globo, e o que pode levar um narrador a comentar sobre a marca? Duvido que vem por acaso.

Se o Flávio Augusto decidisse apoiar uma marca ligada ao PC do B, iria depender só dele e de seu poder aquisitivo, ou a Globo poderia decidir que não bate muito bem com sua marca e se recusar a divulgar?

ATUALIZAÇÃO (2)

Estou tentando esclarecer uma vez por todas a ligação entre os dois protagonistas de minha matéria. Me manifestei (e repitou o gesto com frequênciana) na página da ong Geração de Valor (onde a marca apareceu)
Olá,
Escrevi uma matéria sobre a marca #ChangeBrazil, e queria saber se o moço que vai pelo nome profissional de Mr Maia que usa a marca nos seus vídeos, tem alguma ligação com GV.
Se não for o caso, queria saber se qualquer um pode usá-la, ou se tem que pedir algum tipo de autorização (caso a marca esteja registrada)
Obrigado
Agora, é só esperar.

ATUALIZAÇÃO (3)


Recebi uma resposta de Geração de Valor. Desmentiram qualquer ligação entre a fundação do empresário Flávio Augusto de Silva e Mr Maia.


Quanto à marca #ChangeBrasil, é possível usá-la para fins jornalísticos. Depois de pedir um contato caso eu tivesse mais perguntas, editaram a resposta deixando claro que a marca não é oficialmente deles (é possível que ela seja de dóminio público)
Veja também: O caso #changebrazil: uma conclusão imparcial


8 comentários:

  1. Oi
    gostei do seu artigo, mostra uma verdadeira espírito investigativo. Não gostei porém do tom "teoria da conspiração" (se você me perguntar "onde usei tal tom?" eu apontaria a última frase), o que não vai bem com a proposta de ser imparcial.
    Mas concordo que essas hashtags novas e algumas ligadas a slogans empresariais são estranhas.

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  2. Hugo, muito obrigado pelo seu comentário.

    Concordo com você, a última frase (Tem algo errado) poderia estragar todo o trabalho que tem antes dela. Especialmente porque luto para verificar a informação em vez de imaginar, acreditar...

    Vou tirá-la.

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  3. Caro DP Autret,
    Parabéns, você realizou um excelente trabalho investigativo, desmascarando o tal Mr. Maia. De fato, trata-se este último de um mero empregado do sr. Flávio Augusto de Silva. Precisamos agora, aprofundar um pouco mais o assunto para saber quais são as reais intenções do sr. Flávio, se ele vem agindo sob a égide de outrem e sob quais interesses. A insatisfação é geral, portanto talvez você pudesse inquiri-lo a esse respeito.

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  4. Obrigado Frederico.
    Agora, é só esperar para a resposta. Se não tem nada para esconder, será transparente, pois ele parece dar importância a valores importantes, além de ser accessível e disposto a dar sua opinião.

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  5. Eu uso a tal marca que você fala em todos os meus textos no FB e blog há 15 dias então por isso, estou sendo patrocinada?
    E se fosse, qual o problema, em receber patrocinio para alertar a população brasileira sobre o que acontece no país, qual o problema?
    Por que não investiga os churrascos que o Lulão e a Dilmona fazem para orquestrar o que irão fazer no país, vá investigar estes e os companheiros dos mesmos.

    #changebrazil


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  6. Tatiana, obrigado pelo seu comentário.

    Vou ter que atualizar minha conclusão porque Geração de Valor mudou um pouco sua resposta inicial, deixando claro que a marca não é deles, e sim provavelmente de domínio público. Isso mudo um pouco minha posição, pois Mr Maia é até então o primeiro a usar a marca.

    Sobre suas perguntas (muito bem vindas):

    1. Não. É um ponto bastante interessante. Muitas pessoas usam claramente esta marca (hashtag) sem patrocínio. No final da análise, cheguei a conclusão que o próximo passo será tentar entender como ela apareceu. Voltei no tempo no twitter, e lá, a primeira referência vem também do vídeo de Mr Maia. Você começou a usá-la depois de ter visto o vídeo?

    2. No seu caso, não posso opinar. Você recebe patrocínio? Se for o caso, me diga de quem e só assim eu poderia te dar minha opinião. Nesta análise, pensei que Mr Maia e GV estavam ligados, mas não encontrei provas disto (a marca parece ser de domínio público). Tentei descobrir, porque a Rede Globo estava no final da cadeia. Achei a possível ligação -indivíduo-corporação-grupo de midia gigantesco- suspeito nesse contexto. Mas não tem problema nehum com sua posição, especialmente se ela se dirige à população brasileira. Os dois protagonistas de meu texto parecem estar alertando a população anglófona.

    3. Quanto a este terceiro ponto, neste momento, não estou tocando na política. É um assunto complicado.

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  7. talvez com a metodologia que esse reporter usou na reportagem abaixo, você consiga rastrear a origem e a evolução da hashtag no twitter.

    http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI339322-17770,00-ANALISE+PORQUE+O+PROTESTOSP+NAO+TEVE+UMA+MAS+MUITAS+HASHTAGS.html

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  8. Obrigado, este tipo de dica é muito bem vindo.
    Dei uma olhada, artigo muito interessante mesmo. Vou ter que estudar isso.
    No caso do hashtag #changebrazil no Twitter, fiz isso manualmente. Demora mas dá para voltar até a primeira aparição.
    Quase acabei de atualizar a conclusão.

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